đ±đ”No dia do nosso divĂłrcio, apĂłs trinta anos de casamento, Michael me entregou um saco de papel cinza e disse: âAbra daqui a exatamente um ano. Prometa.â Eu fiz isso, e o que vi dentro me fez estremecer.
Eu nĂŁo discuti. Apenas assenti. Depois de tantos anos juntos, eu estava cansada de esclarecer, provar, salvar. EstĂĄvamos sentados um de frente para o outro â dois estranhos que um dia foram ligados por amor, respiração e vida.
O divĂłrcio aconteceu em silĂȘncio, quase sem palavras. Ele foi embora, e eu fiquei na casa vazia, onde tudo me lembrava ele: a xĂcara na prateleira, o cheiro de cafĂ©, a marca no travesseiro.
O ano se arrastou infinitamente. Sem a voz dele, sem seus passos atrĂĄs da porta, sem o som familiar das chaves na fechadura.
Nosso filho visitava raramente, os amigos evitavam falar sobre isso. E aquele saco cinza continuava no armårio. Eu nunca o toquei, embora às vezes quisesse rasgå-lo e finalmente colocar um ponto final no passado e no mistério ligado a ele.
E hoje â exatamente um ano depois â eu o peguei. O papel estava amarelado, mas a escrita na borda ainda estava nĂtida.
đšđČMeu coração batia tĂŁo forte que eu mal conseguia ouvir minha prĂłpria respiração. Rasguei a borda com cuidado, olhei dentro â e quando vi o que havia lĂĄ, um arrepio frio e paralisante percorreu meu corpoâŠ
Continuação no primeiro comentĂĄriođđ
Dentro do saco havia trĂȘs coisas. Uma pasta fina com carimbos, uma folha dobrada e um envelope com meu nome. Com as mĂŁos trĂȘmulas, peguei a primeira â um laudo mĂ©dico.
Algumas linhas, secas e implacåveis. Um diagnóstico. Incuråvel. Li e reli vårias vezes, sem acreditar no que via, até que as letras começaram a se desfocar pelas lågrimas.
Abaixo havia um documento â o testamento. Tudo o que ele tinha: a casa, as contas, as açÔes â tudo ele deixou para mim e para nosso filho. Na parte inferior estava sua assinatura, firme e segura, como a de um homem que nĂŁo teme o fim.
Por fim, abri a carta. Sua caligrafia. Cada letra dolorosamente familiar.
âEmma, se vocĂȘ estĂĄ lendo isto, significa que eu jĂĄ nĂŁo estou mais aqui. Perdoe-me por ter ido embora assim. Eu nĂŁo queria que vocĂȘ me visse definhar. A doença nĂŁo me deu escolha. Decidi partir enquanto ainda conseguia respirar sozinho e segurar uma caneta. NĂŁo queria pena, nĂŁo queria que vocĂȘ cuidasse de mim como um doente. Queria que vocĂȘ se lembrasse de mim vivo. Perdoe-me por tudo. Pelo silĂȘncio, pela repentinidade, por nĂŁo conseguir dizer isso pessoalmenteâŠâ
As letras se embaralharam diante dos meus olhos, e com elas â todo o mundo. Apertei a carta contra o peito e, pela primeira vez em um ano, nĂŁo contive as lĂĄgrimas. Ele jĂĄ nĂŁo estava aqui, mas naquele momento o senti mais perto do que nunca.
